quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Anatomia de um golo - Kevin de Bruyne

Uma das maiores características dos grandes jogadores, é fazer tudo parecer fácil. 

"Jogar futebol é muito simples, mas jogar futebol simples é a coisa mais difícil que há" segundo Cruyff.

Mas a decisão, o temporizar e decidir quando é o momento de acelerar ou de soltar, a capacidade de provocar no adversário o comportamento que se deseja, para libertar o colega ou ao próprio portador não tem nada de simples. Mas dificilmente se ensina, "sente-se".

Vejamos o exemplo do 3º golo do Manchester City na noite de ontem contra o West Brom.


Tão simples que nem parece belo. O timing para aguentar, esperar para perceber qual dos defesas iria tomar a iniciativa deixando o seu espaço vazio para libertar o colega. E a partir disso aguentar mais um pouco, fixar o defesa e libertar o colega.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Experiências de 2017/2018

Em primeiro pedir desculpa pela inatividade tão prolongada do blogue.

Na presente época deparei-me como treinador com um desafio entusiasmaste. A liderança de uma equipa de Juniores, onde a complexidade de todos os preponderantes aumenta.
Cientes daquelas que são as nossas dificuldades, sempre nos propusemos a procurar jogarmos o jogo que adoramos, que mais que tudo nos é prazerosa e que acreditamos que nos pode trazer melhores resultados.
Aquilo que vos trago é um excerto de uma ação ofensiva deste fim de semana, onde encontramos o 2º lugar da tabela classificava. O objetivo será sempre nos valorizarmos com a bola nos pés, procurando respeitar ao máximo aquilo que é o jogador e aquilo que é a sua essência.
De referir também que de momento nos encontramos sensivelmente a meio da tabela classificava.


quarta-feira, 8 de março de 2017

Golo do Vitória de Guimarães em Alvalade e as referências individuais

A dinâmica e exigência que Jorge Jesus consegue habitualmente colocar no processo defensivo das suas equipas é notável. Sporting aparentemente defende zonalmente.
No entanto a forma como controla a largura apresenta uma referência individual: o ataque da profundidade (ou não) do Defesa Lateral adversário. Se existir a subida do Lateral adversário, o Médio Lateral da sua equipa junta-se à sua linha defensiva, controlando a largura por fora, fazendo uma linha de 5:


Quem faz a progressão no espaço que existe vazio é Josué, Defesa Central. Joel Campbell, a Médio Direito preocupado com o ataque à profundidade de Bruno Gaspar (Defesa Direito), junta-se a Esgaio (Defesa Esquerdo) fechando uma linha de 5 defesas.


Golo Guimarães_EM ANALYSE from Pedro on Vimeo.


Abaixo, o posicionamento que acontece (com todos os possíveis erros de escala):

A "sugestão": Se Joel fecha dentro, juntando-se a Palhinha (Médio Centro pelo lado esquerdo), cortando a linha de passe que existe dentro, Josué que progredia ficaria apenas com a linha de passe do seu Defesa Direito, não sendo esta tão problemática, por o passe ter de sair por "fora" do bloco e por dar tempo para a basculação horizontal tanto da linha média, como da linha defensiva do Sporting.


Abaixo, a imagem se Joel Campbell fecha dentro, abrindo espaço por fora, mas impedindo o ataque ao corredor central:


terça-feira, 16 de agosto de 2016

Portugal no Euro. Mudança de paradigma também no futebol de formação?


Iniciamos a nova época desportiva com um acrescento no alento de cada treinador português.
Portugal Campeão Europeu!
Sem dúvida que será benéfico para todos os intervenientes do jogo, quer jogadores, treinadores, agentes, etc. A credibilidade criada por um título é insubstituível.

Como qualquer português fiquei extremamente feliz com este feito, apesar de não me sentir identificado com as ideias e ideais da nossa seleção.
Sabe-se que habitualmente as grandes competições pela exposição mediática que é criada, são vistas e analisadas por todos, criando-se (perigosamente) novos paradigmas no que diz respeito ao "jogar". Este foi claramente o Europeu do equilíbrio, onde equipas com menor qualidade individual/coletiva conseguiram equivaler-se às restantes.
Procurando uma (perigosa) generalização, conseguem-se identificar alguns padrões nas equipas mais "marcantes" deste Euro:
- A marcação individual foi o método de jogo defensivo;
- Equipas com um bloco baixo, com linhas de espera no seu meio-campo;
- O contra-ataque e  ataque rápido foram o método de jogo ofensivo, deixando que o adversário assumisse o jogo;

Se exceptuarmos a Alemanha, Espanha, Croácia e a Bélgica (que teve intenções, mas pouco organizada) foi raro sentirmos que alguma equipa tinha a intenção clara de assumir o jogo, ou que procurava dominar os comportamentos dos adversários através da sua posse e rápida reação.

Transferindo isto para a minha realidade (ainda curta) de Treinador de Futebol de Formação, e estando neste momento a ultimar os preparativos para a nova época, tenho tido em conta um receio de encontrar com maior regularidade equipas com os padrões de jogo referidos anteriormente por parte das equipas de futebol de formação pelo nosso país.
Ora como o nosso selecionador disse que "As finais não se jogam, ganham-se". Não concordando em absoluto com a expressão, entendendo que terá de haver sempre um processo que justifique a vitória, no entanto percebo e respeito-a, no que diz respeito ao escalão senior. No entanto, não a "aceito" se esta for aplicada no futebol de formação, onde é necessário dar aos jovens futebolistas muito tempo de interação com a bola (mesmo dentro do próprio jogo) com ações "pensadas", procurando assumir jogo ou ser parte integrante deste.
Se dermos aos nossos pequenos futebolistas um modelo de jogo onde deixamos o adversário assumir, onde nos fechamos no nosso meio-campo, onde a maioria das suas ações técnicas serão defensivas, e as ofensivas existindo serão de muito curta duração, estaremos a oferecer um contexto onde não estamos a potenciar aquilo que de mais valioso tem um jogador, a sua criatividade, a sua confiança com bola, a sua capacidade técnica (pela quantidade de toque necessária para a exponenciar), a sua capacidade de decidir, etc.
Sabendo que não existem fórmulas no futebol, anseio pela nova época desportiva e por me enganar redondamente nisto que escrevi.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Processos de uma equipa e o seu padrão de Decisão

Partilho hoje duas imagens que ilustram o trabalho que vem sendo feito este ano, desta vez com uma equipa de futebol 11.
Processos bem definidos, a nível posicional principalmente.

Falemos da imagem abaixo, em Organização Defensiva, onde estão presentes todos os princípios do jogo, desde a contenção até à concentração (e até o "5º o controlo", é visível para onde queremos que ele vão).

No entanto, a basculação vertical da linha defensiva a não ser ainda a mais exacta (podia estar ligeiramente mais subida). Habitualmente também não é pedido que o Avançado baixe tanto.



Em Organização Ofensiva também próximos daquilo que é idealizado.
Ainda sem a largura desejada para os Defesas Laterais (pretende-se que a curto/médio prazo, sejam estes a dar a largura máxima) por alguma insegurança na posse, prevenindo assim a reacção à perda.
Avançado procura a profunidade, "aumentando" o nosso campo, e Extremos procurando vir dentro (Lateral por "fora", extremos "dentro").
Médio Defensivo a procurar pegar na construção, tentando ligar com os médios centros ou Extremos/Laterais.



Está tudo bem definido e assimilado quanto àquilo que deve ser feito nos diferentes momentos de jogo. As dificuldades surgem então ao nível da decisão, não fosse essa das "particularidades" mais importantes do jogo. E é aí que o padrão decisional ainda não é homogéneo. E atenção que homogeneidade não pode ser confundida com padronização de acções ou com um corte com a criatividade. Este padrão prende-se com o momento em que sabemos quando podemos ir para "dentro", quando devemos variar o centro de jogo, quando podemos acelerar e quando devemos organizar, quando são necessárias as combinações ou maior transporte. E aqui, tem muito a ver com o passado individual de cada de jogador, com aquilo que fez anteriormente, com o que era preconizado nos seus anteriores modelos de jogo. E com um plantel constituído com atletas vindos de contextos muitos diferentes, estaremos sempre mais expostos a isto.
A posse está cada vez mais segura e objectiva, mas depois basta um 1x1 ou um passe na ruptura no momento errado (etc.), e voltamos a perder a posse e mais importante que isso ficamos expostos defensivamente para que o adversário encontre espaços para sair no contra-ataque ou ataque rápido.
Até agora os resultados (referindo-se à classificação) não têm sido os esperados, com muitos golos sofridos consequentes de perdas. E é certo que quem procura ter a bola e jogar "bem" estará sempre mais exposto.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

A Utopia de um Modelo de Jogo



Pep Guardiola: "Perfection doesn't exist. Our first halft in Wolfsburg wasn't perfect. It was incredible but we can improve certain aspects".´

E Vítor Pereira, a propósito do detalhe:



O modelo de jogo, terá de compreender toda a especificidade de um "jogar", no mais pormenorizado detalhe. O término de um jogo, ditará sempre aspectos onde estivemos mais ou menos próximos do nosso modelo de jogo.
Um treinador, só poderá ser competente se for um eterno insatisfeito. Não existe o jogo perfeito, não existe o jogo onde não se errou, não existe o jogo onde se diga que, não há possibilidade de melhoria. Existem jogos sim, onde estivemos mais ou menos próximos do modelo de jogo. E daí a aplicabilidade do conceito de "utopia".
Porque num dia em que sentirmos que estamos mais próximos em determinado(s) momento(s) do jogo(s), provavelmente afastamo-nos noutro momento/processo.


A inteligência de um treinador, passa por estar o mais preparado possível para o(s) momento(s) do jogo ou para determinadas especificidades destes, que num jogo específico ele irá sentir mais dificuldades ou poderá explorar.
Passa por criar estímulos durante a semana (do nosso modelo de jogo) que se assemelhem àquilo que provavelmente se irá encontrar e que dêm repetições e contextos suficientes para que em jogo exista a "sensibilização" para esses mesmos estímulos.
Porque é tremendamente difícil que motoramente (e mais ainda quando se fala na formação) que os jogadores consigam estar perfeitamente focados em toda a imensidão de estímulos que o jogo oferece, sendo que o papel do treinador passa por seleccionar durante a semana, os estímulos sensíveis, ou seja, aqueles a que os jogadores devem estar mais alerta, sabendo qe de antemão, que se se prioriza uns, outros passarão para segundo plano (mas não esquecidos).

"Nós já trabalhamos isto" ou "isto já foi treinado" já foi pensado por quase todos os treinadores, e mesmo assim como falhámos? Porque "acertámos" noutros processos aos quais estávamos mais sensíveis.
Porque a perfeição não existe, muito menos no Modelo de Jogo.


quarta-feira, 22 de abril de 2015

As ideias da minha equipa!



Hoje partilho o jogo deste fim-de-semana da minha equipa de Benjamins A.
Não, o vídeo que vão ver em seguida não é de um "mini Barça" ou daquele tipo de vídeos que circulam pela Internet em que miúdos jogam como homens.
Estou inserido numa escola de futebol, onde se prioriza a aprendizagem de conteúdos (o conhecimento do jogo) e onde todos têm oportunidade de competir. Esta é uma equipa de meninos "reais", não existindo qualidades técnicas incomuns, e onde alguns deles se encontram neste momento numa fase de iniciação à competição. Existe no entanto uma enorme vontade de aprender e de trabalhar, e mais que tudo, uma cultura de querer ter a bola.
Neste momento em treino, já foram abordados os 3 primeiros princípios específicos defensivos e os dois primeiros ofensivos, encontrando-nos neste momento a explorar em treino o 3º ofensivo (a mobilidade.
Fica então alguns excertos do jogo deste fim-de-semana, onde estivemos predominantemente em processo ofensivo (peço desculpa pela qualidade da filmagem, mas não existia nenhum ponto elevado neste campo, sendo as bancadas ao nível do solo). Somos os laranjas:


 

Percebem-se algumas ideias gerais do nosso jogo:
- Privilegiar a posse, predominantemente em toque curto, em todo o campo;
- Envolvimento de um grande nº de jogadores nas acções ofensivas, procurando situações de superioridade;
- Tentativa de jogar dentro, onde existem maiores possibilidades;
- Defendemos zona com um bloco alto, reagindo forte à perda, procurando recuperar na zona da bola;
- Incentivo às acções técnicas individuais!!!


Situações como a que acontece no minuto 2:54 (perda de bola à frente da área resulta em golo adversário), provavelmente continuarão a acontecer no futuro, porque não vamos bater longo quando pressionados. E como é que é possível melhorar? Em treino pois claro. Nos treinos existe uma regra que se aplica a todos os momentos da sessão, se alguém bater longo, sem sentido, é marcada uma falta no lugar onde isto aconteceu. Isto não quer dizer que a bola não possa sair do solo, pode claro! Mas só pode se for em passe, e se tiver um colega como destino. Com os "cruzamentos" igual, todos eles têm de ser um passe direccionado para um colega específico e não para a área só porque sim. Isto porque bater bolas é para os preguiçosos, para aqueles que não querem pensar em quem é que vão colocar a bola.
Um grande número de jogadores envolvidos nas acções ofensivas é sinónimo de mais linhas de passe ao portador, permite maior segurança na posse. Como consequência permite que a seguir à perda, se tenha muita gente perto da bola, procurando recuperá-la onde a perdemos. Esta segurança permite que possam ser tentadas acções técnicas individuais com relativa confiança, porque de seguida vamos ter muita gente outra vez para recuperar a bola, e se o adversário bater? Melhor, jogamos lá atrás à vontade e com o nosso Guarda-Redes a dar-nos superioridade.
As nossas maiores dificuldades são técnicas, na capacidade de executar, e aqui só evoluímos se experimentarmos de forma tranquila, sem qualquer medo de errar. Já sabemos que a rua não é como antigamente e não vale a pena tentarmos nos desculpar com isso. Portanto a única forma de inverter será nós trabalharmos em treino a técnica individual dos nossos atletas, e isso não é só colocar os meninos cada um com uma bola a fazer fintas. É por exemplo dar-lhes muitas situações de 1x1 se queremos trabalhar fintas específicas, dar-lhe outro tipo de bolas para jogar se queremos trabalhar o controlo da bola, incentivar as situações de finalização (por exemplo dando mais pontos ao golo quando este é feito de uma determinada forma ou zona), etc. Ou então dar-lhes trabalhos de casa, desafiá-los com exercícios que podem fazer na rua, em casa, na escola. E depois mais importante, dar-lhes tranquilidade para eles praticarem isso no jogo, construindo um ambiente favorável para a ocorrência destas acções. E se falhar? Paciência, a seguir vamos recuperar a bola.
Por último, desvalorizar a importância do resultado final. Este terá de ser a consequência de um bom trabalho feito em campo, nunca abandonando o nosso modelo de jogo. Na minha forma de ver, na formação o resultado não é um indicador de performance, mas sim a capacidade de operacionalizar em jogo os conteúdos e ideias trabalhadas em treino.

Termino com aqueles que costumam ser os pontos comuns das conversas pré-jogo:
- O resultado é uma consequência do nosso trabalho, e nunca o contrário;
- A bola é nossa e o jogo para nós tem dois momentos: o momento em que a temos e desfrutamos, e o momento em que a vamos recuperar!

PS. Se quiserem fazer questões acerca do nosso modelo de jogo ou sobre outra coisa qualquer, disponham!