quarta-feira, 22 de abril de 2015

As ideias da minha equipa!



Hoje partilho o jogo deste fim-de-semana da minha equipa de Benjamins A.
Não, o vídeo que vão ver em seguida não é de um "mini Barça" ou daquele tipo de vídeos que circulam pela Internet em que miúdos jogam como homens.
Estou inserido numa escola de futebol, onde se prioriza a aprendizagem de conteúdos (o conhecimento do jogo) e onde todos têm oportunidade de competir. Esta é uma equipa de meninos "reais", não existindo qualidades técnicas incomuns, e onde alguns deles se encontram neste momento numa fase de iniciação à competição. Existe no entanto uma enorme vontade de aprender e de trabalhar, e mais que tudo, uma cultura de querer ter a bola.
Neste momento em treino, já foram abordados os 3 primeiros princípios específicos defensivos e os dois primeiros ofensivos, encontrando-nos neste momento a explorar em treino o 3º ofensivo (a mobilidade.
Fica então alguns excertos do jogo deste fim-de-semana, onde estivemos predominantemente em processo ofensivo (peço desculpa pela qualidade da filmagem, mas não existia nenhum ponto elevado neste campo, sendo as bancadas ao nível do solo). Somos os laranjas:


 

Percebem-se algumas ideias gerais do nosso jogo:
- Privilegiar a posse, predominantemente em toque curto, em todo o campo;
- Envolvimento de um grande nº de jogadores nas acções ofensivas, procurando situações de superioridade;
- Tentativa de jogar dentro, onde existem maiores possibilidades;
- Defendemos zona com um bloco alto, reagindo forte à perda, procurando recuperar na zona da bola;
- Incentivo às acções técnicas individuais!!!


Situações como a que acontece no minuto 2:54 (perda de bola à frente da área resulta em golo adversário), provavelmente continuarão a acontecer no futuro, porque não vamos bater longo quando pressionados. E como é que é possível melhorar? Em treino pois claro. Nos treinos existe uma regra que se aplica a todos os momentos da sessão, se alguém bater longo, sem sentido, é marcada uma falta no lugar onde isto aconteceu. Isto não quer dizer que a bola não possa sair do solo, pode claro! Mas só pode se for em passe, e se tiver um colega como destino. Com os "cruzamentos" igual, todos eles têm de ser um passe direccionado para um colega específico e não para a área só porque sim. Isto porque bater bolas é para os preguiçosos, para aqueles que não querem pensar em quem é que vão colocar a bola.
Um grande número de jogadores envolvidos nas acções ofensivas é sinónimo de mais linhas de passe ao portador, permite maior segurança na posse. Como consequência permite que a seguir à perda, se tenha muita gente perto da bola, procurando recuperá-la onde a perdemos. Esta segurança permite que possam ser tentadas acções técnicas individuais com relativa confiança, porque de seguida vamos ter muita gente outra vez para recuperar a bola, e se o adversário bater? Melhor, jogamos lá atrás à vontade e com o nosso Guarda-Redes a dar-nos superioridade.
As nossas maiores dificuldades são técnicas, na capacidade de executar, e aqui só evoluímos se experimentarmos de forma tranquila, sem qualquer medo de errar. Já sabemos que a rua não é como antigamente e não vale a pena tentarmos nos desculpar com isso. Portanto a única forma de inverter será nós trabalharmos em treino a técnica individual dos nossos atletas, e isso não é só colocar os meninos cada um com uma bola a fazer fintas. É por exemplo dar-lhes muitas situações de 1x1 se queremos trabalhar fintas específicas, dar-lhe outro tipo de bolas para jogar se queremos trabalhar o controlo da bola, incentivar as situações de finalização (por exemplo dando mais pontos ao golo quando este é feito de uma determinada forma ou zona), etc. Ou então dar-lhes trabalhos de casa, desafiá-los com exercícios que podem fazer na rua, em casa, na escola. E depois mais importante, dar-lhes tranquilidade para eles praticarem isso no jogo, construindo um ambiente favorável para a ocorrência destas acções. E se falhar? Paciência, a seguir vamos recuperar a bola.
Por último, desvalorizar a importância do resultado final. Este terá de ser a consequência de um bom trabalho feito em campo, nunca abandonando o nosso modelo de jogo. Na minha forma de ver, na formação o resultado não é um indicador de performance, mas sim a capacidade de operacionalizar em jogo os conteúdos e ideias trabalhadas em treino.

Termino com aqueles que costumam ser os pontos comuns das conversas pré-jogo:
- O resultado é uma consequência do nosso trabalho, e nunca o contrário;
- A bola é nossa e o jogo para nós tem dois momentos: o momento em que a temos e desfrutamos, e o momento em que a vamos recuperar!

PS. Se quiserem fazer questões acerca do nosso modelo de jogo ou sobre outra coisa qualquer, disponham!

quinta-feira, 16 de abril de 2015

David Luiz e o 1º princípio específico defensivo

Confesso que não vi o jogo PSG vs Barcelona. Ao ver o resumo do jogo, saltou-me à vista este golo, pela facilidade como o defesa é ultrapassado (e não tem a ver com a finta de Suarez).


David Luiz encontra-se numa situação de 1x1 contra Suarez, e este tem em sua vantagem a velocidade a que conduzia, e o espaço nas costas. Segundo os 1º princípio específico defensivo - contenção, David Luiz deveria ter baixo o seu Centro de Massa, acertado sua velocidade com a do portador, e aguentar a posição esperando pela iniciativa do atacante para ai sim, tentar o desarme.
David Luiz passou imediatamente para o desarme, dando o caminho a Suarez.
Tivesse ele parado meio segundo à frente do portador e este ficava numa situação de 1x4.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Atletas criativos ou "standardizados". A propósito do "treino do gesto técnico do passe"

"Atletas criativos ou “standardizados”. Depende pois, da forma como se trabalha. Se
recorrermos a uma abordagem complexa, que apela constantemente a decisões por parte
do jovem, com meios ricos (quer dizer, em que se oferece constrangimentos adequados),
temos mais probabilidades de ter sucesso na formação." (José Guilherme, em " A alfabetização motora: do jovem futebolista: do gatinhar ao primeiro golo – parte 1").

Pela minha experiência, essencialmente recolhida através da observação, reparo que a maioria dos treinadores quando querem trabalhar o passe de forma isolada, isolam-no "à bruta". Despojado de qualquer possibilidade de decisão. Ou se faz um frente-a-frente e dois atletas trocam a bola ou se fazem exercícios deste tipo:



Levam-se cerca de 2/3 minutos (quando não mais) a perceber a dinâmica do exercício, para onde é que cada um é obrigado a fazer o passe, e depois este acabou. Não há estímulo, não há desafio, é o "fazer por fazer".
Quer queiramos ou não, encontra-se completamente desfasado do jogo real, por não ter oposição nem existir um objectivo. E então qual será o transfer para o jogo real? Parece-me que pouco, pois estes atletas aprenderam a agir neste contexto específico, sem pressão adversária e logo com demasiado tempo para executar o que lhes vai permitir uma execução perto do seu máximo de skills. Não me interessaria mais que os jogadores conseguissem a sua "execução máxima" no contexto de jogo? Claro que sim, mas isso tem de ser treinado para ser "jogado".

Deixo então dois exemplos utilizados numa sessão (de Sub-11) em que se pretendia isolar o gesto técnico do passe, procurando que este fosse deliberadamente direccionado (precisão) e que estes procurassem sempre a melhor decisão:

Exercício 1:

- Cada atleta defende duas balizas e ataca as duas do adversário, 
sendo que não pode sair detrás das suas duas balizas;
- 1 ponto se o passe entrar dentro de uma baliza adversária e recebida pelo adversário;
- 3 pontos se o passe entrar dentro de uma baliza adversária e se o adversário não a receber (objectivo de "enganar" o adversário);
- 0 pontos se a bola não entra



          1 ponto. Acertou na baliza, mas adversário              conseguiu dominar.


3 pontos. Acertou na baliza e enganou adversário (este não conseguiu dominar a bola) 

Exercício 2:

2 Atletas a defender 2 balizas cada um. 3º numa área delimitada apenas recebe a bola e escolhe uma de 4 balizas.
- 1 ponto se o passe entrar dentro de uma baliza adversária e recebida pelo adversário;
- 3 pontos se o passe entrar dentro de uma baliza adversária e se o adversário não a receber (objectivo de "enganar" o adversário);
- 0 pontos se a bola não entra



          1 ponto. Acertou na baliza, mas adversário              conseguiu dominar.


3 pontos. Acertou na baliza e enganou adversário (este não conseguiu dominar a bola) 

Vídeo do Exercício 2:


.

Nota: O 3º exercício foi semelhante ao 2º mas em vez de apenas um jogador na zona a amarelo, estavam 2, fazendo estes 1x1 

Neste exercício é fundamental a decisão do jogador. Isso será o que diferencia o jogador que vai fazer mais pontos do que fará menos! Porque de certo que o atleta que fizer menos pontos (excluindo a hipótese da execução técnica não ser a mais eficaz) será o mais previsível e o que fez mais pontos será o que agiu e decidiu da forma menos previsível e mais criativa!
Proporcionar um número cada vez maior de possibilidades de decisão aos nossos atletas, estimulando a procura de novas soluções (e se possível num cada vez menor espaço de tempo), diferenciará o jogador que cria e do previsível que gosta de lateralizar.

A concepção deste tipo de exercício requer muito tempo no planeamento das sessões. Partem das necessidades observadas e procura de um desafio enquadrado com o modelo de jogo estabelecido. Mas o mais complexo, passa pelo enquadramento dos exercícios com uma abordagem ecológica que proporcione ao atleta vários contextos de decisão que se alteram constantemente.

"Portanto, mais que memorizar um grande número de regras, de acções, ou de árvores de decisão, os jogadores precisam de desenvolver a capacidade de percepcionar as informações que revelem os caminhos para o objectivo (Davids, Button, & Bennett, 2008)." Retirado de "A DINÂMICA ECOLÓGICA DA TÁCTICA INDIVIDUAL EM DESPORTOS DE EQUIPA COM BOLA", Duarte Araújo

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

E quando o resultado não aparece?

Recordemos as declarações de Vitor Pereira acerca do golo no minuto 92.

   

O trabalho estaria lá sempre. Este Porto continuaria a ter dos processos mais bem definidos - e com qualidade - que se viu por cá, e por isso esteve sempre mais próximo do sucesso.
Mudar ideias de jogo conforme os jogos, jogar diferente do treino, até pode resultar a curto prazo, mas as consequências acabarão por aparecer...
Tenho quase a certeza que nenhuma equipa tem como modelo de jogo predefinido ou treina o "chutão", mas sendo assim, porque é que se vêm tantas equipas a utilizá-lo?

Relembro a 2ª mão das meias-finais da ultima edição das Champions. O Bayern perdeu por 4 a 0 nesse jogo, mas nunca abandonou a sua forma de jogar, nunca bateu longo, nunca colocou os defesas a avançados, nunca foi na loucura dos cruzamentos, pelo contrário, manteve-se sempre fiel ao seu jogo.

Numa das melhores experiências que já tive ouvi: "O que não fazes no jogo, não fazes no treino", a propósito de um disparate feito num treino na 1ª fase de criação que resultou em golo. E faz todo o sentido, porque se o treino for sempre enquadrado com o jogo e que permita um envolvimento ecológico, o jogador vai ter sempre um background geral que lhe permita decidir conforme as variantes que vão aparecendo, conforme uma ideia de jogo definida. Porque não é possível pedir comportamentos aos atletas que nunca foram treinados, porque não é no jogo que se iniciam aprendizagens. O jogo consolida os aspectos trabalhados em treino.

E a este nível, devido à pressão dos resultados - por toda a envolvência exterior que hoje o futebol profissional tem - é usual ver as equipas a renderem-se à "vitória a qualquer custo". Mas no futebol de formação isto não tem qualquer sentido. E pergunto, e isto não acontece com os miúdos? Claro que acontece, ao fim de semana, em todos os campos/estádios do nosso país.
Continuam e continuarão a existir treinadores que gritam um jogo inteiro decidindo pelos jogadores, que pedem que "não se invente lá atrás" com o medo do golo sofrido, que têm jogadas estudadas para cada bola parada e que ganham os jogos nesses detalhes. E agora pergunto, e de que serve isso se a equipa não é competente? Se a equipa não respeita os princípios de jogo e nem sequer um modelo de jogo? Equipas de miúdos de 10 anos que defendem "abertos", que andam em correrias atrás da sua marcação individual, que não sabem o que é uma linha de passe e que se limitam a jogar um jogo de matraquilhos autêntico, onde o que chuta mais forte e é mais habilidoso normalmente ganha.
Raça? Garra? Espírito de sacrifício? E quando é que a estas palavras são acrescentadas: Organização e Diversão? Os miúdos têm que sair satisfeitos do jogo pelas fintas que fizeram, pela noção clara das suas tarefas e pela organização que impuseram e não apenas pelo resultado final. O jogo tem de ser prazeroso e não um sacrifício.

E o que resta sem as vitórias? O trabalho realizado e que identifica um grupo.
"O único lugar onde sucesso vem antes do trabalho é no dicionário." Albert Einstein

domingo, 12 de outubro de 2014

A abordagem "deixem os miúdos jogar!"



No clube/ escola de futebol onde me encontro, tive a oportunidade de aprender e evoluir inserido na metodologia e identidade do clube, mas de uma forma "ecológica", ou seja, sempre atentando ao envolvimento, a todas as condicionantes que me permitiram "crescer" ganhando pensamento crítico, ideias próprias e vontade de trabalhar.
Por isso, escrevo sobre aquilo que são as minhas influências, no que diz respeito à metodologia do treino e áreas adjacentes. Não me considerando eu certo e os que pensam diferente de mim, errados.

Segundo Pedro Passos, Rui Batalau e Pedro Gonçalves em "Comparação entre as abordagens ecológica e cognitivista para o treino da tomada de decisão no Ténis e no Rugby" temos que:


Na abordagem cognitivista, "o treinador deve descrever ao atleta com base num modelo ideal de execução quais as principais componentes críticas de uma tarefa" centrando-se "nos atletas e na forma como estes realizam a acção proposta, menosprezando a influência das condições da tarefa e do envolvimento". Torna-se importante que "o treinador prescreva um modelo de execução considerado ideal, de modo a induzir nos atletas uma noção clara do esquema de acção que se pretende que seja interiorizado."

Na abordagem ecológica, defende-se que "percepcionamos a informação presente no contexto para decidirmos e agirmos, e com a nossa acção alteramos a informação do contexto para continuarmos a decidir e a agir e assim sucessivamente". E a acção, "mais do que dependente da capacidade do indivíduo está condicionada pelo que o contexto permite fazer" "sendo a decisão um processo emergente" de procura de soluções para o contexto.
"Então todas as nossas decisões, não farão sentido quando retiradas do contexto, por exemplo, a decisão de um atacante no Rugby em alterar a sua linha de corrida, só acontece porque percepciona a posição de um defesa no seu caminho para a zona de ensaio, e ao alterar a linha de corrida, fá-lo (agindo) para percepcionar o que o defesa irá fazer (qual a sua acção), e assim sucessivamente, da mesma forma, a decisão de um jogador de Ténis em bater a bola para determinada zona do court, só acontecerá porque percepciona que o adversário dificilmente lá chegará em condições para responder com sucesso." "Neste sentido, não é aconselhável determinar à partida qual o gesto técnico que pretendemos que os nossos jogadores realizem".

Este artigo, analisou as duas abordagens, quer para o gesto técnico da placagem no rugby e para o 1º serviço no ténis.

CONCLUSÕES
"Quer para o Rugby como para o Ténis, constatou-se que o grupo da abordagem ecológica, em que o treino assenta numa manipulação dos constrangimentos, é aquele que apresentou durante mais tempo e com maior frequência desempenhos próximos do seu melhor. Conduzir o treino para a procura dos modelos ideais de execução, leva a que os atletas tenham maiores oscilações entre bons e maus desempenhos."

Percebe-se portanto, que a abordagem ecológica proporciona aos atletas uma progressão mais "linear", ao contrário da abordagem cognitivista, que faz com que a performance oscile entre valores mínimos e máximos.

No entanto, o que é a abordagem ecológica? É na sua maior simplicidade o JOGO. Jogo com tudo! Jogos reduzidos, jogos com constrangimentos e tudo o que permita aos atletas decidir, tudo o que crie um envolvimento instável em constante mudança!
Ora de seguida, proponho então um pensamento crítico acerca de alguns  exemplos de exercícios tipo, que costumam incluir filas de espera ou comportamentos padronizados com espaço reduzido para a decisão. Proponho então o JOGO em cada exercício:

Objectivo:
Abordagem cognitivista
Abordagem ecológica
Princípios correspondentes:
1º ofensivo (penetração) e 1º defensivo (contenção.

Objectivo: Mudanças de direcção no drible.
- Duas filas, duas balizas;
- O azul faz passe e fica imediatamente a defender, sendo que o vermelho pode fazer golo numa das duas balizas;
- Acabando a acção, voltam as filas.

- Campo de 1x1;
- Pode atacar qualquer uma das balizas. Defende as duas balizas. Jogo contínuo.



Princípios correspondentes: 1º ofensivo

Objectivo: Realização de dribles e técnicas de finta.
- Em fila, parte o primeiro da fila;
- Dribla pinos azuis. Chegado ao laranja executa finta pedida pelo treinador (ex. tesoura, roleta,etc) e de seguida finaliza;
- Acabando a acção, voltam as filas.


- Situação de 1x1. Cada atleta defende uma baliza definida e ataca a outra;
- Se executar a finta seguida de um golo, este vale 2 pontos.

Princípios correspondentes: 1º e 2º ofensivo (cobertura ofensiva) e 1º defensivo.

Objectivo: Provocar e fixar defesa.
Defesa em inferioridade.



- Situação de 2x1+GR. Duas filas de atacantes (azuis) e uma fila de defesas (vermelhos);
- Ao apito, saem os primeiros de cada fila e realizam situação de 2x1+GR;
- Acabando a acção, voltam as filas.

- Situação de 2x1+GR;
- Equipa em momento defensivo tem de baixar um guarda-redes.

Princípios correspondentes: 3º (mobilidade) e 4º ofensivo (espaço).
3º (equilíbrio) e 4º defensivo (concentração).

Objectivo: Procurar cruzamento para finalizar com superioridade na área.
- Exercício para treino de movimentos padrão (do que mais se vê, e tantas vezes o fiz enquanto jogador da formação);
- Neste caso, procura o cruzamento e finalização na área.
- Acabando a acção, voltam as filas.


- GR+10x10+GR, em meio-campo;
- Duas áreas a azul (nos corredores laterais), que apenas podem ser ocupadas por um jogador da equipa que ataca. A equipa que defende nunca pode ter ninguém na área azul.


Nota: Estes são exercícios isolados, escolhidos ao acaso, que correspondem a objectivos diferentes, portanto compilados, não fariam parte de UMA sessão de treino.

Estando a correr o risco de estar a extremar a abordagem cognitivista, fechando (quase ao máximo) os seus exercícios, é muito isto que se encontra por aí. Os treinadores a quererem controlar todas as acções dos atletas, colocando-os assim em fila, e realizando o exercício à vez, para o treinador poder aprovar ou não a acção realizada, conforme os padrões idealizados por este.
Aquilo que se propõe é muito mais que isso, é libertar os atletas, é oferecer-lhe condições para estarem em actividade motora todo o tempo de um exercício, envolvidos com o adversário, procurando a superação contínua e com um ambiente criado pelos constrangimentos impostos pelo treinador.

Pelo estudo acima citado, percebe-se que uma abordagem ecológica, permitindo aos atletas uma "descoberta guiada" oferece resultados interessantes e mais estáveis que a outra abordagem, então porque não aplicar isso e mais que isso experimentar com os atletas. Vamos reflectir, acham que os atletas preferem num exercício de 15 minutos, estar todo esse tempo em actividade motora, ou preferem estar numa fila, fazendo "o mesmo" mas só 5/6 vezes, estando em acção durante 2/3 minutos? A resposta parece óbvia. Será que os atletas preferem descobrir por si próprios a solução para os seus problemas, ou que alguém lhes impinja uma única solução obrigatória? Até porque no jogo, o treinador não pode mandar parar este, para "indicar" a melhor solução. Portanto é urgente que os atletas comecem a decidir por si e pelo envolvimento, para que o papel do treinador durante o jogo seja cada vez menor!

Vamos cativar os miúdos pelo treino!

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

A priorização da vitória no futebol de formação

Para já, pedir desculpa pela ausência de publicações, mas o tempo não tem permitido grandes desvios de pensamento.


Hoje escrevo sobre um tema que ultimamente que tem causado demasiada preocupação...
A formação em Portugal na generalidade, atravessa tempos difíceis, para não dizer ridículos. Numa região, torna-se difícil nomear clubes que trabalhem com uma metodologia definida, com uma identidade própria, procurando formar atletas, e não a vitória.
Assiste-se à vitória como objectivo principal, e à aprendizagem como um segundo plano. Querem-se "formar" os atletas para o sucesso imediato, para vencer. Ganhar tudo com 7, 8, 9 ...16 anos?? Para quê? Para ter miúdos a "não inventar lá atrás", para "cada um marcar o seu", para "tirar", "para "não fintar", etc.
O mais gritante, é que se olharmos para os clubes com mais "sucesso" (em quantidade de vitórias) nos escalões de formação, percebemos que na maioria são clubes que têm uma politica não de formação, mas sim de recrutamento. Trata-se então de um trabalho de curto prazo relativamente facilitado, pois clubes com maior expressão (e nem sequer me refiro aos "grandes" do futebol português), têm facilidade em aliciar os pais dos atletas, que parecem mais preocupados em alcançar um determinado status social por o seu filho jogar no "maior" clube da terrinha, do que aprender.
Na minha realidade mais próxima e olhando para as equipas que possuem formação e futebol sénior, exceptuando 1/2 casos raros, os restantes clubes da região, limitam-se a ter formação "por ter". Mas também a sua grande maioria esta acaba por não ter qualidade para chegar a profissionalização, ou pelo menos qualidade imediata. É inconcebível olhar para estruturas de clubes com dimensões consideráveis e descobrir que existe um, dois ou mesmo nenhum licenciado. Não que os licenciados sejam o expoente máximo da formação, mas sim porque têm capacidades no que diz respeito à pedagogia e normalmente na metodologia do treino que os distinguem. Não é por acaso que as maiores estruturas do futebol português têm na sua formação, em grande maioria profissionais licenciados. Não que os "não licenciados" sejam incapazes de fazer belos trabalhos, mas sim porque os treinadores, directores, etc., são os ex-jogadores, os amigos do presidente, entre outros, que treinam futebol sénior com miúdos de 10 anos.
As crianças precisam do jogo, precisam de situações de 1x1, de 2x2, de 3x3... com constrangimentos que provoquem inferioridade/ igualdade/ superioridade e não de estar 7 em cada fila, a executar uma jogada padronizada que o treinador idealizou e que nunca vão fazer, porque adivinhem, no jogo real existe ADVERSÁRIO e não pinos/ bonecos.

E isto só mudará quando os pais dos atletas forem educados (ou seja, provavelmente nunca) e em vez de quererem a notoriedade e a vitória, queiram a aprendizagem a formação. Porque transferindo isto para a via escolar, se o filho tiver um Excelente no teste porque decorou as respostas ou as fórmulas de matemática, mas não porque percebeu as contas/operações que fez, mais cedo ou mais tarde, ele vai ter insucesso e não vai conseguir fazer as contas mais complicadas. Mas aì, de quem será a culpa? Do professor actual? Ou de todos os outros que só lhe ensinaram a ter sucesso?

Por isso gosto de pensar no futebol e nas pessoas que comandam as equipas de formação como professores, e não tanto como treinadores. Porque o que é necessário é cativar os atletas através do treino e torná-los curiosos quanto ao jogo e não porque o treinador é muito "fixe", porque faz as vontades e dá chocolates aos meninos. O futebol, como qualquer outra modalidade tem de ser "ensinada" e o erro é o motor da aprendizagem. Porque os atletas precisam de saber que determinada acção funciona ou não por si próprios e não porque o treinador lhes diz para não fazer, e daqui voltamos mais uma vez à necessidade das formas jogadas no treino, porque o jogo oferece todas as variantes!! E assim o atleta (guiado pelo treino e constrangimentos do professor) conseguirá descobrir/aprender por si próprio, percebendo as melhores soluções tendo em conta o próprio eu!

domingo, 13 de julho de 2014

Final do Mundial 2014



Ainda não tinha escrito nenhuma publicação com este tema, pois no meu entendimento e na minha forma de pensar o jogo, este tem sido um mundial fraquíssimo, com selecções (com jogadores) de top, a cometerem erros banais, que se conseguem ver no nosso Campeonato Nacional de Seniores. Marcações Individuais no campo todo, diferentes linhas defensivas, fase de construção completamente vertical, jogadores só para atacar e jogadores só para defender, etc.
No meu entender, e sendo esta a competição com maior projecção mundial, existiriam condições para que fosse praticado do melhor futebol do mundo. Mas isso são outras contas.

Mas proponho-me essencialmente a comentar a final a realizar no próximo domingo
E se o futebol hoje for justo (mais uma vez), ganhará a equipa melhor organizada, mais esclarecida em todos os momentos, portanto, a Alemanha. E tendo em conta o impacto isto poderá ter, espero que a nível geral se comece a olhar realmente para o jogo, e deixemos de ouvir os comentadores desportivos falar em humidade, motivação e outras tantas desculpas para o insucesso.

Relativamente àquilo que a Alemanha pode fazer tendo em conta esta Argentina:

Nos cantos, a Argentina (contra a Holanda) defendeu misto, HxH todos os homens da Holanda no interior da área, colocando os sobrantes 3 na linha do poste.

Ora vejamos o que a Alemanha fez a uma selecção que defendia os cantos de forma relativamente parecida:



Na seguinte imagem repara-se:
- Defesa completamente posicional. Kuyt sai a conduzir do corredor (Zabaleta acompanhou) e não houve basculação. Argentina a jogar em "campo grande". V. Persie (não aparece na imagem) fica no corredor em situação de possível 1x0 ou 1x1.
- Espaço entre linha média e defensiva. Robben acaba por ir receber a bola no circulo a laranja.


Mais uma vez, espaço no corredor central. Argentina concentrada do lado da bola. Se bola entra no corredor central, Sneijder ficava em situação de 3x3 e com oportunidade de finalização.

Dada a quantidade de jogadores e a facilidade que a Alemanha tem em jogar entre linhas, nomeadamente no corredor central, e a frequência de variações do sentido de jogo, senão vejamos:



Bola no corredor lateral, atraindo a equipa brasileira. Variou para o corredor central e de seguida a bola entra no espaço das diferentes linhas defensivas.

Falando daquilo que é a maior debilidade da Alemanha: a Transição Defensiva, e aqui, a capacidade de Messi para atrair e fixar será preponderante:





PS: Será acaso o factor Pep Guardiola? Ou seja, os jogadores das equipas dele estiveram sempre em maioria nas selecção espanhola em 2008/2010/2012 e agora na Alemanha? Se repararmos com atenção, existiu/existe muito dele nestas selecções que venceram/estão próximas de vencer.